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Carta ao Kafka

Escrito em 28 de agosto de 2019

Não é de se admirar que esta redatora que vos fala tenha como livro favorito o que, na verdade, é uma carta.

Uma carta que surgiu da frieza da resposta do pai de Franz Kafka ao anúncio de seu noivado.

Esse foi o estopim para que mágoas antigas – e também as mais frescas – viessem à tona e dessem luz a um manuscrito de mais de cem páginas, que jamais fora enviado: Carta ao Pai.

A meu ver, esse não envio também faz parte da mágica do livro. Uma belíssima obra, que chega a ser poética pelos deslocamentos de sentido que promove – e também pela profundidade –, mas, ao mesmo tempo, é real, visceral e extremamente dolorosa. Ouso dizer que vale por várias sessões de terapia.

Nesse livro, Kafka corta caminhos para que o leitor chegue logo a esconderijos de acusações e mágoas.

A forma como ele abordou o que, na minha leitura, é seu tema central – os veredictos de autoridades sobre nós – pode ser decisiva para que se descubra com mais antecedência, e talvez até se possa prevenir, a respeito daquilo que viria pela frente na vida do autor: ver-se como um ser fraco e amedrontado (o que jamais foi verdade no caso dele, mas apagar veredictos paternos é realmente penoso).

Recomendo a leitura desse livro para cada ser humano.

Kafka nos dá uma luz, mesmo que por meio de palavras tão amargas, sobre o comportamento humano e sobre como veredictos desfavoráveis e injustos a respeito de nossas identidades podem e devem ser denunciados. Eu sinto por ele, que jamais soube o que seu pai sentiria ao ler seu brilhante desabafo. Por isso, deixo aqui o que seria a minha Carta ao Kafka:

Brasília, 28 de agosto de 2019

Meu querido,

nunca fomos apresentados. E, por algumas questões de tempo e espaço, acho que isso não será fácil de acontecer. Mas suponho que me conheça, já que sua carta também foi sobre mim.

Meu país é bem distante e lindo. Você deveria ter vindo aqui. No momento atual, sofremos com um regente que diz coisas horríveis sobre nós todos os dias. Mas você me salvou, em um determinado momento da vida, da triste obrigação de oferecer meus preciosos ouvidos a autoridades estúpidas. Hoje, eles cuidam mais de ouvir boa música.

Preciso lhe dizer que, se sua carta tivesse sido enviada, talvez eu jamais tivesse acesso a ela. E aí, então, eu e milhares de pessoas ao redor do planeta saberíamos tardiamente (ou talvez jamais soubéssemos) que, nos primeiros segundos de relacionamento, os veredictos já são dados por todas as partes.

Eu sinto muito pelo impacto que isso teve em sua vida. Se tivéssemos vivido na mesma época, se tivéssemos sido próximos, eu o abraçaria como quem ama, pois você fez mais por mim com sua carta do que muitos vivos e contemporâneos próximos.

Queria muito que soubesse que, graças às suas palavras, ainda é possível que vulnerabilidades venham à luz, que padrões sejam expostos e que os falsos deuses recebam seus verdadeiros nomes: arbitrários, tiranos, déspotas, ditadores, abusadores.

E que, por fim, seus nomes possam encontrar descanso no esquecimento e na desonra que os enganadores merecem.

Um tirano é o pior tipo de feiticeiro: aquele capaz de transformar bondade em fraqueza.

Você jamais foi fraco ou amedrontado. É preciso coragem divina para expor a verdade que tirará outros do cativeiro. A sua carta envergonhou o patriarcado como ele se apresentou nos últimos séculos. Esse que é a raiz de toda violência. O patriarcado mau, que abandona a prole à sorte da autodepreciação e do conflito.

Não sei qual era o teor do relacionamento que tinha com sua irmã Gabriele, mas a Gabrielle de cá o vê como um irmão de verdade. Aliás, mais que isso, uma vez que nem todos os irmãos se veem como iguais. E eu me vi em suas palavras com igualdade, vi minhas dores em suas denúncias e pude dar códigos e símbolos às minhas ansiedades graças a você. Graças à sua carta, eu pude respirar novamente com o alívio da confissão que você não pôde fazer. O que mais posso dizer é: sinta-se confessado. Respire.

Gabrielle Seraine


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